GARATUJAS E GARRANCHOS

SEBASTIÃO PEDROSA

Sebastião Pedrosa

A produção de Sebastião Pedrosa pode ser compreendida como uma investigação sobre a pintura enquanto campo de inscrição. Em seus trabalhos, a superfície deixa de operar apenas como suporte para a imagem e passa a funcionar como lugar de registro de um gesto reiterado. Linhas, tramas e marcas se acumulam ao longo do tempo, formando estruturas que oscilam entre organização e instabilidade.

Há, em sua prática, uma atenção particular ao ritmo do fazer. Cada repetição não reproduz exatamente a anterior. Pequenas variações produzem deslocamentos na superfície e introduzem uma espécie de pulsação interna à obra. O que se apresenta ao olhar é o vestígio de um processo contínuo de construção.

A obra, nesse contexto, aproxima-se de uma lógica de escrita. As marcas funcionam como sinais que não se traduzem em linguagem verbal, mas que mantêm com ela uma relação estrutural. A superfície torna-se um espaço de inscrição onde gesto, tempo e pensamento se articulam.

Não se trata de um sistema fechado, o trabalho de Pedrosa parece operar a partir de uma disciplina que aceita o imprevisto. A repetição organiza o campo visual, mas nunca o estabiliza completamente. Entre método e deriva, a obra permanece aberta, como se cada uma fosse apenas um momento de um processo que poderia continuar indefinidamente.

Garranchos e Garatujas - Sebastião Pedros

Walter Arcela

Curador

Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte – ABCA

De que universo vieram esses signos enigmáticos? Em nome de que povo, astros, universos, seres, deuses, mitos, elas falam? Comunicam quais desejos e segredos? E nessas sobras de madeira, de cama, de galhos, o que restou? Que histórias e dramas ocultam-se?

Referimo-nos como “eixo” às cidades do Sudeste brasileiro por conta de sua hegemonia econômica sobre os circuitos artísticos. A alcunha, por sua vez, se constituiu apartada de um mundaréu de produções que prescindem dessa validação para existir e adquirir relevância nos anais da arte contemporânea brasileira. É o caso de Sebastião Pedrosa, artista nascido na cidade de Vicência, na Zona da Mata Norte de Pernambuco.

Com mais de seis décadas de trajetória artística, Sebastião Pedrosa construiu uma obra que se sustenta pela consistência de pesquisa, bem como pelo impacto de sua atuação como educador e gestor. Professor durante cerca de trinta anos no curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Pernambuco, figurando como um dos precursores na formação de gerações de artistas e pesquisadores, Pedrosa contribui decisivamente para a consolidação do campo profissional no estado. Sua prática pedagógica, assim como sua produção artística, aposta na experimentação, na generosidade com os corpos e matérias, na abertura de diálogos e na convivência curiosa entre diferentes suportes e procedimentos. É a partir dessa trajetória que apresentamos, na sua primeira exposição na cidade de São Paulo, através da Lança Galeria, um recorte de trabalhos inéditos que se insinua entre um campo expandido da escrita e uma arqueologia elementar.

As obras aqui expostas, especialmente nas séries de “Garatujas e Garranchos”, título homônimo à exposição, trazem a escrita como centro, distribuídas num sistema instável de traçados delgados e rápidos. Cada superfície bicromática é atravessada por listras deslocadas em relação ao eixo do centro, e estruturam o campo visual como uma espécie de partitura complacente à rebeldia, pois ainda que sugiram uma ordem, possibilitam a polifonia rítmica, agem multiplicando a sensação de planos e detalhes. Há algo que olhamos, mas perdemos de vista.

A composição emerge de uma fricção contínua entre ordenamento e pulsão, entre o que se estrutura dividido em quadrados, e seus desvios, tornando o suporte um território em disputa, onde signos se acumulam, se sobrepõem e insistem em permanecer, como palimpsestos ou pinturas rupestres, cuja ação do tempo altera, oblitera, mas é incapaz de apagar.

Lógica esta que alia-se ao interesse do artista por uma “escrita inventada” , como o próprio nomeia. Essa escrita assêmica compõe-se de signos que simulam linguagem, evocando garranchos e garatujas de linguagens indefinidamente possíveis. Essas imagens produzem uma familiaridade intrigante: nelas, reconhecemos algo legível, como se estivéssemos diante de um idioma esquecido ou de um código arcaico.

Essa aparência de universalidade condensa tempos e culturas, evocando hieróglifos, agroglifos, inscrições rupestres, manuscritos medievais e grafismos modernos, constituindo, assim, uma caligrafia culturalmente expandida. Ainda, parecem garatujas infantis, desenhos distraídos feitos ao telefone, gestos que oscilam entre o voluntário banal e o inconsciente coletivo.

A escrita de Pedrosa opera em uma temporalidade difusa, alienígena e atemporal. Seus procedimentos de fatura, como a finalização em encáustica nas telas, intensificam essa dimensão ao conferir às superfícies uma tez densa. Essa materialidade aproxima as obras tanto de azulejos centenários quanto de documentos adulterados em processos de grilagem, ativando a escrita como imagem de arquivo histórico e, contraditoriamente, como fabulação, o que acentua o teor de mistério arqueológico.

Do ponto de vista gestual, Pedrosa dialoga com a tradição do automatismo, em um fluxo contínuo que remete à escrita automática surrealista, à corpografia de Cy Twombly e à geometrização intuitiva de Paul Klee, fazendo coexistir regimes distintos de gesto quando vemos a similaridade com a herança do talhar pernambucano em diálogo com o virtuosismo de Nuca de Tracunhaém e o esculpir de José Barbosa, por exemplo.

Já as esculturas (naturezas-mortas, para usar uma categoria canonizada da história da arte) deslocam essa investigação para o campo da matéria. Fragmentos de madeira, vestígios de queima e elementos naturais reorganizados configuram uma poética da ruína e da memória, com um viés paisagístico que remete diretamente à violência sobre o território da Zona da Mata pernambucana, de onde esses galhos são oriundos. Quando acopladas a restos de mobiliário, elas tornam-se indícios de processos macropolíticos, como disputas territoriais, devastação e descarte, ao mesmo tempo em que se vinculam a um universo doméstico, ligado à experiência de decadência dos bens de consumo duráveis na decoração das classes médias.

Nessa articulação, emerge uma reflexão ampla sobre modos de organização social. A amarração entre uma engenharia complexa e um sistema de manufaturas evidencia contradições estruturais de um país em que regimes industriais coexistem com economias artesanais marcadas pela precariedade enquanto condição e inventividade como resposta.

Desde os anos 1980, Pedrosa desenvolve uma investigação geométrica baseada em grades, estruturas e mecânicas de organização do espaço visual. Esse ordenamento instrumental se desbaratina, sobretudo nas esculturas e objetos, onde materiais carregados de uso, desgaste e história se impõem. Como resultado, o industrial-matemático e o artesanal-orgânico se bifurcam, tal qual o conceitual da arte contemporânea e o fazer manual se respondem e se potencializam. Pedrosa insere-se entre os artistas que operam essa articulação potentemente.

Entre garranchos e garatujas, entre engenharias e suspensões, entre a ordem e o desvio, instaura-se um campo de forças que atravessa toda a produção de Sebastião Pedrosa, um dos artistas cuja produção possui reconhecível força e consistência, e um universo de possibilidades ainda não decifradas.

Exposição Garatujas e Garranchos - Sebastião Pedrosa

Local: Lança Galeria

Endereço: Rua Major Sertório, 88/502 - Vila Buarque - São Paulo

Visitação: terça a sexta I das 14 às 19h30 (Outros horários mediante agendamento)

De 28 de março a 16 de maio, de terça a sexta, das 14h às 19h30.