FORMAS DE PRESENÇA
ART.PE 2026
O que significa estar presente? É a partir dessa questão que Formas de Presença reúne sete artistas de distintas gerações e trajetórias, propondo um percurso pelas diferentes maneiras como cada produção estabelece sua relação com o espaço e com o espectador.
A presença é um acontecimento relacional que emerge do encontro entre a obra e o ambiente que a acolhe e quem a vê. Cada artista investiga as condições desse emergir, explorando os limites entre a materialidade e o corpo que a percebe. Há obras que fazem da matéria um corpo e do corpo uma medida. A forma exige que o espectador se posicione, se deixe afetar e a materialidade participa da constituição da obra, criando relações sobre que é construído e o que resiste à construção.
Outros trabalhos se voltam para a imagem e para suas possibilidades de transformação. A imagem se forma e se deforma diante de nós, recusando a estabilidade da representação. Há ainda aqueles que fazem do espaço uma matéria a ser trabalhada em que a obra faz o ambiente ao seu redor, produzindo experiências que dependem do movimento do corpo e da variação da luz.
As obras se afetam reciprocamente e o espectador é convidado a percorrer conexões que não estão dadas de antemão. A montagem produz um pensamento espacial ao não criar uma narrativa linear. A proposta cria núcleos de diálogo entre os artistas, permitindo que diferentes tempos, procedimentos e linguagens coexistam. Essa compreensão parte de uma reflexão sobre a feira de arte como um espaço simultaneamente expositivo, institucional e de circulação. A seleção evidencia a consistência das pesquisas individuais e constrói uma apresentação capaz de revelar conexões entre diferentes posições dentro da produção contemporânea brasileira.
O estande se coloca como uma forma de presença com uma perspectiva comum: a capacidade da obra de produzir uma presença que se prolonga para além de sua materialidade imediata e que continua a nos interrogar muito depois de termos deixado o espaço da feira.
Texto: Cássia Pérez
Adalgisa Campos
Adalgisa Campos na ART.PE
A produção de Adalgisa Campos investiga as relações entre corpo, forma e matéria, explorando as possibilidades de transformação de elementos cotidianos em construções que desafiam as convenções da escultura e dos objetos. Por meio de tecidos e diferentes procedimentos manuais, a artista desenvolve trabalhos nos quais a materialidade se relaciona diretamente com o gesto e com a experiência corporal. Suas obras exploram as tensões entre estrutura e delicadeza, conferindo novos sentidos a materiais frequentemente associados ao universo doméstico e às práticas tradicionalmente vinculadas ao feminino.
Na Arte PE, junto à Lança Galeria, Adalgisa apresenta os lencinhos e outros trabalhos de sua última exposição, reunindo obras que evidenciam a continuidade de sua pesquisa sobre as relações entre matéria, corpo e objeto. Os lencinhos, objetos que remetem à intimidade e aos pequenos gestos da vida cotidiana, adquirem outra dimensão ao serem incorporados à sua produção artística. Deslocados de seus usos habituais, passam a integrar uma investigação sobre as possibilidades expressivas dos materiais e sobre a maneira como os objetos carregam marcas de experiências, afetos e memórias.
A escolha de materiais e procedimentos associados ao fazer manual ocupa um lugar importante nessa pesquisa. A costura, a manipulação dos tecidos e a construção das formas tornam visível o trabalho investido em cada peça, valorizando o gesto como parte constitutiva da obra. Em vez de ocultar os processos de elaboração, Adalgisa faz da própria construção um elemento de interesse, aproximando a produção artística de práticas que envolvem cuidado, repetição e transformação. Nesse movimento, materiais familiares são retirados de seu contexto habitual e passam a operar em outros registros, entre a função, a forma e a experiência sensível.
Ao reunir os lencinhos e outras obras de sua última exposição, a apresentação na Arte PE oferece um panorama da pesquisa de Adalgisa Campos, na qual objetos e materiais cotidianos são reinventados por meio de operações que alteram sua escala, sua função e sua percepção. Seus trabalhos convidam a reconsiderar aquilo que reconhecemos como familiar, revelando, nas formas e nos gestos mais simples, outras possibilidades de relação entre o corpo, a matéria e o espaço.
Adalgisa Campos I Desenho Cosmográfico (Lencinho 26), 2025 I Acrílica e grafite sobre lenço I 28 x 28 cm (sem moldura)
Adalgisa Campos I Desenho Cosmográfico (Lencinho 04), 2025 I Cinzas de papel, acrílica e papel carbono sobre lenço I 19 x 19 cm (sem moldura)
Adalgisa Campos I Desenho Cosmográfico (Lencinho 06), 2025 I Grafite e recorte sobre lenço I 17,5 x 17,5 cm (sem moldura)
Adalgisa Campos I Desenho Cosmográfico (Lencinho 05), 2025 I Acrílica sobre lenço I 20 x 20 cm (sem moldura)
Adalgisa Campos I Desenho Cosmográfico (Lencinho 40), 2025 I Acrílica sobre lenço I 28 x 28 cm (sem moldura)

