Giorgia Volpe na Manif d’art 12: escutar a cidade

Entre as muitas estratégias pelas quais a arte contemporânea tenta tornar sensível aquilo que permanece invisível nas estruturas sociais, poucas são tão discretas e incisivas quanto as propostas de Giorgia Volpe. Nascida em São Paulo e radicada em Quebec desde o final dos anos 1990, a artista desenvolveu ao longo de décadas uma prática marcada por ações mínimas, objetos relacionais e intervenções que se infiltram na vida cotidiana. Sua participação na Manif d’art – Biennale de Québec reafirma essa vocação para operar no limiar entre gesto poético e leitura crítica do espaço social.

Na 12ª edição da bienal, realizada entre fevereiro e abril de 2026, Volpe apresenta Ausculter le plafond, uma obra que se insere no circuito de arte pública da cidade. A proposta consiste em uma vídeo-performance na qual dois performers golpeiam o teto de um espaço interior com longos bastões, como se estivessem sondando uma superfície congelada. Vestidos com roupas de inverno apesar de estarem dentro de um edifício, os corpos executam uma espécie de coreografia absurda que desloca os códigos da exploração territorial para o interior da arquitetura doméstica.

À primeira vista, a cena pode parecer leve ou até humorística. No entanto, a operação de Volpe revela algo mais profundo: a forma como o gesto cotidiano pode se tornar um instrumento de leitura política do espaço. Ao “auscultar” o teto, os performers parecem procurar algo que não está imediatamente visível, como se a própria estrutura da casa escondesse uma camada de realidade social que precisa ser escutada.

Essa dimensão torna-se particularmente significativa no contexto urbano de Quebec. A obra dialoga com a crise habitacional que atravessa a província canadense, evidenciando o paradoxo entre a existência de espaços desocupados e a precariedade de acesso à moradia enfrentada por parte da população. Assim, o gesto aparentemente absurdo de bater no teto transforma-se em uma espécie de arqueologia doméstica do vazio.

Nesse sentido, a intervenção de Volpe também se articula com o próprio formato da bienal. A Manif d’art – Biennale de Québec é conhecida por expandir o campo expositivo para além dos museus, ocupando ruas, edifícios e espaços públicos da cidade. Essa estratégia desloca a experiência artística para o território da vida urbana, onde a obra deixa de ser um objeto isolado e passa a funcionar como dispositivo de percepção.

No trabalho de Volpe, esse deslocamento ocorre através de uma economia de meios. Em vez de recorrer a monumentalidade ou espetáculo, a artista prefere trabalhar com ações pequenas, quase banais, capazes de produzir fissuras na forma habitual de olhar para o mundo. O que se apresenta ao público não é uma narrativa explícita, mas uma situação: um gesto repetido, um corpo que investiga o espaço, um ruído que reverbera na arquitetura.

Essa estratégia é recorrente na trajetória da artista. Desde o início de sua carreira, Volpe tem explorado a dimensão relacional da arte, desenvolvendo trabalhos que investigam as relações entre indivíduos, coletividades e ambientes urbanos. Em muitos casos, suas obras funcionam como catalisadores de atenção, convidando o público a perceber aquilo que normalmente passa despercebido.

Em Ausculter le plafond, o gesto de escuta torna-se central. A cidade aparece não apenas como cenário, mas como corpo sensível, atravessado por tensões invisíveis. O teto, que normalmente delimita o interior de uma casa, transforma-se em superfície de contato entre diferentes camadas da experiência urbana: o abrigo e a precariedade, o espaço privado e a estrutura social que o sustenta.

Assim, a obra de Giorgia Volpe na Manif d’art 12 reafirma uma das potências mais discretas da arte contemporânea: a capacidade de tornar perceptíveis as condições que estruturam a vida coletiva. Ao transformar um gesto absurdo em ferramenta de escuta, a artista nos lembra que, às vezes, compreender uma cidade exige antes de tudo aprender a ouvir aquilo que ressoa em suas superfícies.


A Manif d’art 12 – Biennale de Québec acontece entre 28 de fevereiro e 19 de abril de 2026, reunindo artistas de diferentes países em exposições, performances e intervenções espalhadas pela cidade de Québec.

A participação de Giorgia Volpe integra o circuito de arte pública da bienal, com a obra Ausculter le plafond, apresentada como projeção em vídeo no espaço urbano.

Período da obra:
28 de fevereiro a 19 de abril de 2026.

Localização da instalação:
Rue Saint-Augustin / Rue Saint-Jean
Quartier Saint-Jean-Baptiste
Québec City, Canadá.

A obra é apresentada diretamente no tecido urbano, no cruzamento dessas duas ruas do centro histórico, integrando o percurso público da bienal que ocupa fachadas, praças e passagens da cidade.

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