Entre a terra e o gesto

O quintal aparece antes do discurso. Um pedaço de terra irregular, um animal que observa à distância. Nada ali parece pedir interpretação imediata. A cena se impõe pela familiaridade e, ao mesmo tempo, por uma estranheza discreta, como se aquilo que se reconhece não pudesse mais ser nomeado com precisão. É nesse intervalo, entre o que se lembra e o que escapa, que o trabalho de Isabella Siqueira se instala.

Isabella Siqueira / Arquivo

A artista construiu sua trajetória a partir de referências do seu redor, não seguindo regras ou respondendo à demandas mercadológicas. O interior paulista, o fazer manual aprendido em casa, a presença constante da terra e do cuidado. Filha de uma professora de pintura e neta de um escultor autodidata, Siqueira herda tanto técnicas quanto uma ética do trabalho que entende a matéria como algo que responde, resiste e devolve sentidos. 

Pintura, cerâmica, geotintas e aplicações têxteis coexistem em seu trabalho sem hierarquia clara. Essa escolha não é motivada por uma defesa da interdisciplinaridade em si, mas pela necessidade de cada cena encontrar o material que a sustenta. A terra aparece como mais que um tema, como substância. O tecido é extensão do corpo. A pintura, por sua vez, recusa o acabamento virtuoso e prefere a superfície onde o tempo do gesto permanece visível.

Descanso em baixo do pé de jambo, 2025. Óleo sobre tela, 40 × 30 cm.

As séries recentes ajudam a entender essa postura. Em Reimaginar, o foco recai sobre figuras femininas moldadas pela vida no interior, pela repetição de tarefas, pelo vínculo com a terra e com o outro. Não há heroísmo nem denúncia explícita. O que se vê são corpos em estado de atenção, ocupados em existir. A política dessas imagens está na insistência em tornar visível um tipo de experiência frequentemente reduzida ao campo do folclórico ou do sentimental.

Já em Motivos Ordinários, o gesto cotidiano se torna um eixo de reflexão. Alimentar um animal, varrer o chão, observar o entorno. A repetição, longe de empobrecer a cena, adensa seu sentido. Esses gestos, historicamente associados ao trabalho invisível, aparecem como formas de organização do mundo. Ao tratá-los como matéria poética, a artista sugere que a política do cotidiano se dá naquilo que sustenta a vida de forma contínua e silenciosa.

Maria Celeste e o pavão, 2025. Óleo sobre tela, 70 × 50 cm.

A cerâmica, desenvolvida em paralelo no Sítio Acalanto, aprofunda essa relação com o tempo e com o fazer. As pequenas narrativas moldadas em barro não buscam monumentalidade. São objetos que parecem pedir proximidade, quase um uso doméstico. O barro, com sua fragilidade e sua dependência do fogo, impõe limites que se tornam parte do discurso. Nada ali é imediato. O processo exige espera, risco e aceitação da perda. Em um contexto cultural cada vez mais orientado pela aceleração e pela circulação incessante de imagens, esse ritmo desacelerado funciona como contraponto crítico-contínuo e silenciosa. sentimental. Ao retirar essas figuras do lugar do estereótipo, Siqueira desloca também o modo como se pensa o feminino em contextos rurais. 

Cavalinhos e eguinhas, 2025. Tinta acrílica sobre cerâmica.

Essa atenção ao tempo também se manifesta nas colaborações editoriais e gráficas da artista. Ao criar a capa do livro Marinheira no Mundo, de Ruth Guimarães, Siqueira dialoga com uma autora cuja obra se construiu a partir da oralidade, do universo rural e das margens da literatura brasileira. A escolha não é casual. Assim como Guimarães, a artista parece interessada em narrativas que não se organizam a partir do centro, mas de uma observação minuciosa ao que persiste fora dos grandes eixos de visibilidade.

1. Meu ensejo, 2024. Acrílica e bordado sobre algodão. 68 × 68 cm. 2. Tardezinha, 2023. Acrílica e bordado sobre algodão. 40 × 30 cm.

O mesmo se pode dizer de seus trabalhos para o filme Água Funda, inspirado na obra da escritora. Cartazes e animações funcionam como extensões visuais de um imaginário compartilhado. Há uma coerência entre os diferentes campos em que Siqueira atua, não porque repita fórmulas, mas porque mantém uma mesma atenção ao modo como imagens constroem pertencimento. 

Cartaz para a divulgação do filme “Agua Funda” obra inspirada na literatura da escritora Ruth Guimarães.

As exposições realizadas nos últimos anos, tanto individuais quanto coletivas, reforçam essa leitura. Títulos como Entre o chão e a encantaria indicam uma preocupação constante com o espaço entre o concreto e o imaginado. Não se trata de romantizar o interior ou de opor campo e cidade de maneira simplista. O que está em jogo é a possibilidade de pensar outros regimes de sensibilidade, menos orientados pela produtividade e mais atentos às formas de cuidado e permanência. 

Há também uma dimensão urbana nesse trabalho, ainda que ela não apareça como tema explícito. Para o olhar acostumado à velocidade da cidade, essas imagens funcionam como zonas de desaceleração. Não oferecem respostas, exigem tempo. Essa exigência, em si, é um gesto político. Em um sistema artístico frequentemente pressionado por visibilidade e novidade, a escolha por uma pesquisa que se desenvolve de maneira orgânica e contínua desafia expectativas de carreira e de mercado.

Manina, cavalo e canarinho, 2025. Óleo sobre tela. 20 × 30 cm.

O interesse crescente por práticas que valorizam o fazer manual e os vínculos comunitários poderia facilmente enquadrar o trabalho de Siqueira em uma tendência. No entanto, o que o distingue é justamente a recusa em se alinhar de forma programática a qualquer discurso dominante. Suas obras não ilustram conceitos. Elas se constroem a partir de uma experiência vivida, transmitida e reelaborada ao longo do tempo. 

Maria Chiquinha, 2025. Óleo sobre tela. 30 × 40 cm.

Talvez seja por isso que suas imagens permaneçam depois do primeiro contato. Não porque impressionam, mas porque se insinuam. Como o quintal da cena inicial, elas parecem simples à primeira vista. Quanto mais se olha, mais se percebe que ali se articulam camadas de memória, trabalho e imaginação que resistem à tradução imediata. O que fica não é uma mensagem, é uma sensação de que algo essencial foi colocado em suspensão. E que, para compreendê-lo, é preciso aceitar o convite à permanência.

Próximo
Próximo

Giorgia Volpe: entre gestos, tramas e territórios