Giorgia Volpe: entre gestos, tramas e territórios

A obra de Giorgia Volpe nasce de uma atenção minuciosa aos movimentos discretos do mundo. São gestos quase imperceptíveis, objetos que pertencem ao cotidiano e materialidades que acompanham a vida comum. Ao segui-los, a artista não busca o detalhe pelo seu caráter ilustrativo, mas pela consciência de que é ali, no pequeno, que se inscrevem as forças que moldam nossa experiência sensível. Essa escuta do ínfimo desdobra-se em um campo ampliado, onde corpo, espaço e memória deixam de existir como entidades separadas e passam a se afetar em fluxo contínuo. Em sua trajetória, práticas artesanais coexistem com ações no espaço urbano, intimidade e coletividade se implicam mutuamente, e o processo se estende para além do ateliê e se realiza também na esfera pública. Surge assim uma poética que dissolve fronteiras fixas e transita por múltiplas zonas de experiência, fazendo da arte um modo de experimentar o mundo por suas camadas mais profundas.

Volpe descreve sua produção como multidisciplinar e orientada por relações e diálogos, manifestando-se em intervenções, vídeos performáticos, obras públicas e objetos artísticos. Esse conjunto heterogêneo encontra unidade na ideia de que a arte se constrói como forma de encontro e como gesto que transforma o lugar onde acontece.

Registro feito no Brooklyn durante sua participação nas residências da NARS Foundation.


O cotidiano como campo expandido

No núcleo de sua prática estão os materiais e gestos do universo doméstico. Não funcionam apenas como repertório, mas como modo de pensar o corpo a partir do que ele toca, dobra e repete. Ao investigar “os lugares de passagem entre o dentro e o fora, o íntimo e o público, o individual e o coletivo”, a artista desloca o cotidiano para um território de experimentação crítica. Nada é neutro: o objeto doméstico guarda memória; o gesto comum guarda história; o espaço habitual guarda tensões.

As técnicas artesanais que Volpe utiliza, como trançado, bordado, tricô, cestaria, colchas e cartografia, não operam apenas como recursos formais. São modos de pensar com as mãos, de produzir sentido pela repetição do gesto e pela escuta da matéria. Essas práticas exigem proximidade e atenção contínua, instauram um ritmo próprio e deslocam a percepção para a temporalidade lenta do fazer. O tempo da obra passa a ser o tempo do corpo, e o processo se inscreve na própria materialidade que a artista convoca, acumulando camadas de ação, memória e presença. Ao persistir nesses procedimentos, Volpe produz superfícies que não são apenas imagens, mas marcas sensíveis de um pensamento em gesto. Cada ponto, cada dobra e cada trama evocam modos de reinscrever o corpo no mundo e de revelar, na matéria que responde ao toque, aquilo que permanece para além do olhar imediato.

“Passagem Migratória” aborda a migração como força que molda territórios, sociedades e espécies, evocando simultaneamente vulnerabilidade e resiliência. Quinze canais trançados suspensos atravessam a Place de Paris, criando um fluxo visual que remete a uma procissão. A obra homenageia o folclore quebequense, as crenças dos marinheiros e os saberes das Primeiras Nações, instalando-se em um antigo ponto de encontro dessas comunidades. Apresentada no Passages Insolites, Ex-Muro Art Public, no Porto Velho de Quebec.


Processo como método, repetição como pensamento

A repetição, para Volpe, não é um retorno ao idêntico, mas um princípio de metamorfose. Cada gesto reiterado abre uma diferença, produz deslocamento, inscreve uma variação que altera tanto a matéria quanto o próprio fazer. Sua obra se estrutura nessa lógica: um processo que avança por camadas, que acumula ritmos, que transforma o simples ato de repetir em campo de investigação. Em vez de buscar uma forma conclusiva, a artista se dedica à construção contínua, ao que permanece em elaboração, ao que se atualiza a cada gesto refeito. É nesse circuito de fazer e refazer que sua poética encontra força, produzindo obras que não encerram o movimento, mas o mantêm vivo.

Essa ética do processo aproxima sua trajetória de uma fenomenologia da atenção. O gesto que retorna não é mecânico: ele lembra, elabora e faz da matéria um corpo em constante mudança.

Exercício de Memória, apresentado no Simpósio Internacional de Baie-St-Paul em 2013, com curadoria de Serge Murphy.


Entre o íntimo e o coletivo

A artista identifica dois eixos que orientam sua produção. O primeiro é o eixo social, que se manifesta em intervenções efêmeras, comunitárias e urbanas. Nesses trabalhos, a obra atua como catalisador de encontro e provoca deslocamentos perceptivos no cotidiano da cidade.

O segundo é o eixo íntimo, visível sobretudo em fotografias e vídeos voltados às memórias sensoriais e afetivas. Neles, a artista cria espaços de silêncio, recolhimento e escuta.

Esses dois campos se atravessam. O íntimo reverbera no coletivo e o social sustenta o gesto pessoal. Assim, a poética de Volpe se organiza como uma trama de reciprocidades.

Uma trajetória que atravessa geografias e escalas

A formação da artista, nascida em 1969 em São Paulo, com bacharelado em artes visuais e ensino de artes plásticas pela Universidade de São Paulo e mestrado pela Université Laval, no Québec, anuncia o movimento entre geografias que marca sua trajetória. Ela vive e trabalha no Québec desde 1998. Sua presença internacional se desdobra em exposições no Brasil, Canadá, Europa, América Latina e Ásia, além de residências que aprofundam esse trânsito, como a que realiza atualmente na NARS Foundation, em Nova York.

A atuação de Volpe inclui também um conjunto expressivo de obras de integração arquitetônica e ambiental, instaladas em escolas, bibliotecas, edifícios públicos e áreas naturais. Nessas criações permanentes, a artista transforma o ambiente como extensão de sua pesquisa sobre corpo, território e convivência.

Giorgia Volpe na capa da edição 262 da revista Vie des arts em 2021. Com foto de Alex Blouin e Jodi Heartz.

O gesto que habita o espaço

Em sua reflexão, Volpe se interessa pela capacidade da obra de se imantar ao lugar, de se difundir no espaço onde surge e de atuar sobre ele de modo quase orgânico. A obra não apenas ocupa uma área física: ela produz um deslocamento sensível, reformula a maneira como percebemos e habitamos aquele ambiente. Essa compreensão indica um domínio preciso da potência da arte pública, entendida aqui não como intervenção pontual, mas como dispositivo que reorganiza ritmos, trajetórias e modos de ver.

Na poética da artista, a obra pública se configura como gesto incorporado ao cotidiano, uma presença que se infiltra nas rotinas e revisita a paisagem sem estridência. Ao fazer isso, convoca quem passa a perceber o espaço com outra atenção, aquela que reconhece no ambiente mais do que um cenário, mas uma camada viva de relações, memórias e possibilidades ainda não plenamente visíveis.

Arte como prática de vínculo

A trajetória de Giorgia Volpe revela uma artista que compreende a criação como prática de vínculo, um modo de tecer relações entre matéria, gesto, território e alteridade. Seu trabalho não se orienta pela espetacularidade, mas por uma intensidade sutil, que emerge quando o olhar se aproxima do detalhe e aceita a lentidão necessária para perceber as transformações que ali se acumulam. É no ritmo reiterado do fazer, na persistência do gesto e na escuta silenciosa do espaço que sua poética se adensa. A obra surge como campo de relação, capaz de reconfigurar a presença de quem a vê e de instaurar modos mais atentos e sensíveis de estar no mundo.

Entre tramas, dobras e passagens, Volpe constrói uma poética que revela a espessura do cotidiano. Uma poética que sugere que o mundo, mesmo quando parece familiar, está sempre à espera de outro modo de ser tocado.


Entre geografias: os percursos recentes de Giorgia Volpe

Entre geografias: os percursos recentes de Giorgia Volpe

Entre 2025 e 2026, a presença de Giorgia Volpe se intensifica em diferentes territórios e plataformas expositivas. Ao longo de seis meses, de julho a dezembro, a artista realiza uma residência de longa duração na NARS Foundation, no Brooklyn, desenvolvendo pesquisa e experimentações com apoio do Canada Council for the Arts (CAC), do Conseil des arts et des lettres du Québec (CALQ) e da Ville de Québec. Dentro desse ciclo, as etapas conduzidas em setembro sob curadoria de Daniela Mayer e retomadas em novembro com orientação de Jungmin Cho aprofundam seu diálogo com a cena contemporânea norte-americana e resultam na exposição It Would Hurt Us, Were We Awake, também curada por Daniela Mayer.

No Canadá, em Quebec, participou da 10ª edição da Foire d’art actuel de Québec. Ainda na região, integrará a Manif d’Art 12 – Bienal de Quebec (2026), que ocorrerá de 28 de fevereiro a 19 de abril sob direção curatorial de Didier Morelli. Em Ontário, apresentará obras na mostra TropiX no London Museum, com curadoria de Rodrigo Alcântara e estreia em 22 de novembro deste ano.

No campo performático, realiza PAUSA: alteractions no Tompkins Park, em Manhattan, com curadoria de Hector Canonge, reafirmando a dimensão pública e relacional de sua prática.

Em 2025, finalizou duas obras de arte pública permanente em Quebec. No Brasil, marcou presença na Feira de Arte de Pernambuco e celebra sua primeira exposição na Lança Galeria, com abertura em 22 de novembro deste ano, consolidando um novo capítulo de sua circulação internacional.

Texto: Leandro Nunes

 

(ENGLISH VERSION)

Giorgia Volpe: between gestures, weavings and territories

Giorgia Volpe’s work is born from a meticulous attentiveness to the discreet movements of the world. These are almost imperceptible gestures, objects that belong to everyday life and materialities that accompany ordinary existence. By following them, the artist does not seek detail for its illustrative character, but out of an awareness that it is precisely there, in the small, that the forces shaping our sensorial experience are inscribed. This listening to the infinitesimal unfolds into an expanded field, where body, space and memory cease to exist as separate entities and begin to affect one another in continuous flow. Throughout her trajectory, artisanal practices coexist with actions in urban space, intimacy and collectivity mutually implicate each other, and process extends beyond the studio to take form also in the public sphere. Thus emerges a poetics that dissolves fixed borders and circulates through multiple zones of experience, making art a way of encountering the world through its deeper layers.

Volpe describes her production as multidisciplinary and guided by relationships and dialogues, manifesting in interventions, performative videos, public artworks and artistic objects. This heterogeneous body finds unity in the idea that art is constructed as a form of encounter and as a gesture that transforms the place where it happens.

Recorded in Brooklyn during her participation in the NARS Foundation residencies.


The everyday as an expanded field

At the core of her practice are the materials and gestures of the domestic universe. They function not only as repertoire, but as a way of thinking the body through what it touches, folds and repeats. By investigating “the places of passage between inside and outside, the intimate and the public, the individual and the collective”, the artist shifts everyday life into a territory of critical experimentation. Nothing is neutral: the domestic object holds memory; the ordinary gesture holds history; the habitual space holds tensions.

The artisanal techniques Volpe employs—such as weaving, embroidery, knitting, basketry, quilting and cartographic procedures—operate not only as formal resources. They are ways of thinking with the hands, of producing meaning through the repetition of gesture and through attentive listening to matter. These practices demand proximity and sustained attention, establishing their own rhythm and shifting perception toward the slow temporality of making. The time of the work becomes the time of the body, and the process becomes inscribed in the very materiality the artist brings forth, accumulating layers of action, memory and presence. By persisting in these procedures, Volpe produces surfaces that are not merely images, but sensitive traces of a thinking-in-gesture. Each stitch, fold and weave evokes ways of reinscribing the body in the world and of revealing, in the material that responds to touch, what remains beyond immediate sight.

“Passage Migratoire” explores migration as a force that shapes territories, societies, and species, evoking both vulnerability and resilience. Fifteen suspended braided channels cross the Place de Paris, creating a visual flow that recalls a procession. The work pays tribute to Québécois folklore, sailors’ beliefs, and the knowledge of the First Nations, installed at a former meeting point for these communities. Presented at Passages Insolites, Ex-Muro Art Public, in the Old Port of Quebec.


Process as method, repetition as thought

For Volpe, repetition is not a return to the identical, but a principle of metamorphosis. Each reiterated gesture opens a difference, produces displacement, inscribes a variation that transforms both the material and the act of making itself. Her work is structured according to this logic: a process that advances in layers, accumulates rhythms and transforms the simple act of repeating into a field of investigation. Rather than seeking a conclusive form, the artist dedicates herself to continuous construction, to what remains in elaboration, to what is updated with each redone gesture. It is within this circuit of doing and undoing that her poetics finds strength, producing works that do not enclose movement, but keep it alive.

This ethics of process brings her trajectory close to a phenomenology of attention. The returning gesture is not mechanical: it remembers, elaborates and transforms matter into a body in constant change.

Exercise of Memory, presented at the International Symposium of Baie-St-Paul in 2013, curated by Serge Murphy.


Between the intimate and the collective

The artist identifies two axes that guide her production. The first is the social axis, which manifests in ephemeral, community-based and urban interventions. In these works, the piece acts as a catalyst for encounter and provokes perceptual shifts in the daily life of the city.

The second is the intimate axis, visible above all in photographs and videos oriented toward sensory and affective memories. In these works, the artist creates spaces of silence, withdrawal and listening.

These two fields intersect. The intimate reverberates within the collective, and the social sustains the personal gesture. Thus, Volpe’s poetics is organized as a weave of reciprocities.

A trajectory that crosses geographies and scales

The artist’s formation, born in 1969 in São Paulo, with a bachelor’s degree in visual arts and art education from the University of São Paulo and a master’s degree from Université Laval in Québec, announces the movement between geographies that marks her trajectory. She has lived and worked in Québec since 1998. Her international presence unfolds in exhibitions in Brazil, Canada, Europe, Latin America and Asia, in addition to residencies that deepen this circulation, such as the one she is currently undertaking at the NARS Foundation in New York.

Volpe’s practice also includes a significant group of architectural and environmental integration artworks installed in schools, libraries, public buildings and natural areas. In these permanent creations, the artist transforms the environment as an extension of her research on body, territory and coexistence.

Giorgia Volpe on the cover of issue 262 of Vie des arts magazine in 2021. Featuring a photograph by Alex Blouin and Jodi Heartz.

The gesture that inhabits space

In her reflection, Volpe is interested in the capacity of artwork to magnetize itself to place, to diffuse into the space in which it emerges and to act upon it in an almost organic manner. The work does not merely occupy a physical area: it produces a sensitive shift, reformulates the way we perceive and inhabit that environment. This understanding signals a precise command of the potential of public art, understood here not as a punctual intervention, but as a device that reorganizes rhythms, trajectories and ways of seeing.

In the artist’s poetics, public artwork appears as a gesture incorporated into everyday life, a presence that infiltrates routines and revisits the landscape without stridency. By doing so, it invites those who pass by to perceive space with renewed attention, recognizing in the environment not just a backdrop, but a living layer of relations, memories and possibilities not yet fully visible.

Art as a practice of connection

Giorgia Volpe’s trajectory reveals an artist who understands creation as a practice of connection, a way of weaving relationships between matter, gesture, territory and alterity. Her work is not guided by spectacle, but by subtle intensity, emerging when the gaze approaches detail and accepts the slowness necessary to perceive the transformations that accumulate there. It is in the reiterated rhythm of making, in the persistence of gesture and in the silent listening to space that her poetics deepens. The artwork arises as a relational field capable of reconfiguring the presence of those who encounter it and of establishing more attentive and sensitive ways of being in the world.

Among weavings, folds and passages, Volpe constructs a poetics that reveals the thickness of everyday life. A poetics that suggests that the world, even when it appears familiar, is always awaiting another way of being touched.

 

Across geographies: Giorgia Volpe’s recent paths

Between 2025 and 2026, Giorgia Volpe’s presence intensifies across different territories and exhibition platforms. Over a six-month period, from July to December, the artist carries out a long-term residency at the NARS Foundation in Brooklyn, developing research and experimentation supported by the Canada Council for the Arts (CAC), the Conseil des arts et des lettres du Québec (CALQ) and the Ville de Québec. Within this cycle, the stages conducted in September under the curatorship of Daniela Mayer and resumed in November under the guidance of Jungmin Cho deepen her dialogue with the North American contemporary art scene and culminate in the exhibition It Would Hurt Us, Were We Awake, also curated by Daniela Mayer.

In Canada, in Quebec, she participated in the 10th edition of the Foire d’art actuel de Québec. Still in the region, she will take part in Manif d’Art 12 – Biennial of Quebec (2026), scheduled from February 28 to April 19 under the curatorial direction of Didier Morelli. In Ontario, she will also present works in the exhibition TropiX at the London Museum, curated by Rodrigo Alcântara and opening on November 22 of this year.

In the field of performance, she presents PAUSA: alteractions at Tompkins Park in Manhattan, curated by Hector Canonge, reaffirming the public and relational dimension of her practice.

In 2025, she completed two permanent public artworks in Quebec. In Brazil, she was featured at the Feira de Arte de Pernambuco and now celebrates her first exhibition at Lança Galeria, opening on November 22 of this year, marking a new chapter in her international trajectory.

Text: Leandro Nunes

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