Há um alfabeto que não se aprende na escola. Suas letras não estão nos livros didáticos nem em nenhum manual. Elas são esculpidas na madeira dos bancos das calçadas, nos gestos repetidos da feitura, nas conversas que atravessam a tarde nos bairros. É desse outro alfabeto que a Marcenaria Olinda nos convida a nos aproximarmos.
OUTRO ABC: Marcenaria Olinda
07.MAR.26-17.MAR.26
A instalação que ocupa o espaço expositivo carrega em si a memória tátil da cidade, seja do peso do corpo que descansa após a feira, a conversa fiada que se estende, o menino que desliza os dedos pelas frestas enquanto espera. Há um gesto poético em cada banco que traz consigo uma letra, como antigos carimbos de tipografia que um dia deram forma às palavras impressas nos jornais e livros. O visitante é convidado a movimentar-se por entre essas peças, rearranjando-as, compondo palavras e frases que emergem desse jogo lúdico e coletivo.
A Marcenaria Olinda opera nessa fronteira onde a arte encontra o design, onde o objeto utilitário transborda sua função para tornar-se também signo. Seu trabalho parte do ordinário para extrair dele uma poética que é profundamente enraizada no Nordeste. Não o Nordeste dos estereótipos, mas aquele que se revela nos pequenos gestos, nas cores, nas texturas da madeira que guardam o tempo.
Existe uma presença do popular e do sagrado que se desdobra em obras que ocupam a galeria como altares pagãos. Em Fiteiro Dois Irmãos, há um baleiro de madeira com os pirulitos que remetem às tradicionais guloseimas de São Cosme e Damião e aqui o público é convidado a levar pirulitos para casa. O gesto, aparentemente simples, carrega a força dos santos gêmeos protetores das crianças, cuja oferenda se transforma em partilha. A obra se completa na memória afetiva que cada um carrega consigo.
Já em Junho - Dois Mil e Sempre, o tempo é celebrado em suas dobras mais festivas. Um calendário feito de bandeirinhas de madeira marca os dias dedicados a Santo Antônio, São João e São Pedro com a madeira mais escura, como se o próprio material guardasse a data em sua anatomia. Cada dia é uma bandeira, cada bandeira é um dia, num convite para percorrer o mês com os olhos e com as mãos, sentindo a leveza do papel que a madeira imita e homenageia.
A Lança Galeria, em sua trajetória de valorização da produção brasileira, acolhe este projeto com a certeza de que é no local que encontramos o universal. Nesta Design Week, enquanto o mundo debate as novas linguagens do mobiliário e do objeto, propomos um desvio. Um retorno à letra, ao gesto manual, à palavra que se faz carne na madeira. Um convite para que cada um escreva, com esses bancos-letras, sua própria história, ainda que provisória, para ser desmanchada e refeita pelo próximo.
Porque a cidade é feita desses encontros. E a madeira, quando bem trabalhada, guarda a memória de todos os corpos que nela se apoiaram.
Venha compor seu alfabeto.
Texto: Cássia Pérez
FICHA TÉCNICA
Lança Galeria: Josemar Costa, Leandro Nunes e Cássia Pérez
Exposição: OUTRO ABC
Texto crítico: Cássia Pérez
Produção Executiva: Equipe Lança Galeria
Expografia: Josemar Costa
Programação Visual: Leandro Nunes
Montagem: Equipe Lança Galeria
Iluminação: Bruna Melquíades
Sinalização: Equipe Lança Galeria
Serviço
Exposição "Outro ABC”, Individual de Marcenaria Olinda
Local: Lança Galeria
Período: 07/03 - 13/03
Endereço: Rua Major Sertório, 88, conj 502
Visitação: terça a sexta I das 12 às 19h
(Outros horários mediante agendamento)
Abertura: 07/03 - das 12 às 19h.

