COSMOGRAFIAS E LENCINHOS
ADALGISA CAMPOS
Adalgisa Campos
Adalgisa Campos desenvolve uma pesquisa em que o desenho funciona como modo de observar, medir e se relacionar com o mundo. Sua prática atravessa o papel, a instalação, o vídeo, a animação, a performance e diferentes procedimentos de construção da imagem, mantendo o desenho como eixo capaz de articular corpo, espaço, memória e experiência.
Em seus trabalhos, medidas, mapas, plantas, fragmentos de arquitetura e elementos ligados ao cotidiano deixam de operar apenas como registros objetivos. Passam a carregar a posição de quem observa e percorre esses espaços. A escala pode partir de um cômodo, de um chão, de uma paisagem ou de algo suficientemente pequeno para permanecer junto ao corpo. É nesse trânsito entre sistemas de organização e experiências particulares que sua produção encontra grande parte de sua força.
Em Cosmografias e lencinhos, essas questões aparecem por diferentes caminhos. Camadas, sobreposições, sequências e mudanças de escala aproximam territórios e gestos íntimos, enquanto materiais e suportes incorporam histórias anteriores à própria imagem. O desenho surge, assim, como uma forma de inscrição: uma maneira de tornar visíveis relações entre aquilo que se mede, aquilo que se percorre e aquilo que permanece.
Nascida em São Paulo, em 1971, Adalgisa é graduada em Arquitetura pela FAU-USP, realizou pós-graduação em Pesquisa Cromática na École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs, em Paris, cursou Artes Visuais na Universidade Paris VIII e é mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNICAMP. Participou de exposições, performances e residências no Brasil, França, Alemanha, Canadá e Estados Unidos. Vive e trabalha em São Paulo.
Cosmografias e Lencinhos
Sylvia Werneck
Curadora
“O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são”, teria afirmado Protágoras. É até estranho que essa máxima me venha à cabeça ao pensar no trabalho de Adalgisa Campos, uma vez que suas medições fazem justamente vacilar a pretensão de um sujeito universal a partir do qual o mundo poderia ser dimensionado.
Muitos séculos depois, Donna Haraway propôs pensar o conhecimento como necessariamente situado. Todo olhar parte de uma posição, de um corpo, de circunstâncias específicas. As medições de Adalgisa também são situadas. Guardam certa proximidade com as dimensões reais das coisas, mas não pretendem ser neutras. São medidas tomadas por um corpo em sua relação com o mundo.
Antes da medida, porém, há o desenho. Sempre, antes de tudo e por fim, o desenho.
Adalgisa desenha quando risca sobre o papel, mas também quando mede um quarto, transfere uma planta baixa, recorta o desenho de um chão ou faz uma estrutura de cadarços ocupar o espaço. Materiais, escalas e suportes variam, mas é o desenho que organiza sua relação com as coisas: atenção ao detalhe, recusa à pressa. O corpo estabelece a posição a partir da qual essa observação acontece, enquanto o desenho inscreve o que foi observado.
Adalgisa mede chãos. De quartos, de salas, de fragmentos de casas. Interessa-se por mapas, mas não exatamente por aqueles que representam grandes extensões que a cartografia oficial tratou de delimitar e nomear. Seus territórios tendem a ser menores — um bairro, uma casa, um cômodo, a porção de solo sobre a qual um corpo se move. São espaços apreendidos a partir de perguntas: quanto mede um quarto? Onde começa uma escada? Que desenho produz um determinado perímetro?
No livro-obra 5 solos, cinco desenhos provenientes de sua coleção de medições aparecem primeiro separadamente para, em seguida, serem combinados dois a dois, três a três, até se sobreporem todos. Recortadas em feltro, as páginas são vazadas e permitem enxergar as demais. Ao ser manipulado, o material cede, dobra e faz os planos interferirem uns nos outros.
Essa mesma lógica de sobreposição estrutura os Desenhos cosmográficos. Grades, linhas, cores, coordenadas do corpo e referências espaciais ocupam diferentes planos sem que uns encubram os outros. Esses trabalhos não são propriamente palimpsestos, nos quais uma nova inscrição busca obliterar a anterior. As camadas continuam identificáveis, e é justamente sua coexistência que torna as imagens mais complexas. Um desenho pode conter vários desenhos, assim como uma medida pode encontrar outra sem perder o elo com sua origem.
Cheia parte de uma operação semelhante, mas produz um resultado distinto. Também aqui há sobreposição, mas a fluidez da tinta faz com que as linhas se misturem progressivamente até se fundirem. É a única obra da exposição organizada como uma sequência narrativa de dez imagens, à maneira de fotogramas.
É interessante que esses desenhos sejam chamados de “cosmográficos”. Para Adalgisa, o termo não designa a descrição do mundo, mas uma inscrição no mundo. Desenhar torna-se uma maneira de escrevê-lo e de tornar visível ao menos um de seus fragmentos. Os elementos mobilizados nessa escrita permanecem ligados ao corpo e ao que está próximo: asas, pés, coração, Bexiga, casas, campos. O título da exposição, Cosmografias e lencinhos, aproxima escalas aparentemente incompatíveis. De um lado, a tentativa de escrever o mundo; do outro, pequenos pedaços de tecido que cabem na mão, no bolso, junto ao corpo.
Alguns lugares integram a cartografia de Adalgisa sem terem sido habitados por ela. Já adulta, visitou Campo de Sementes, fazenda onde sua mãe vivera, e mediu a escada frontal da sede, única parte do edifício a que teve acesso. Sem reconstituir a memória da casa, o desenho retém as dimensões desse fragmento e o faz operar como metonímia do todo.
Os lencinhos pertencem a outra ordem de experiência. Alguns pertenceram à mãe; outros foram dados por ela a Adalgisa. Presentes no cotidiano da artista, tornam-se suportes para novas inscrições. Em Do tamanho do corpo (Corpo #22), as cinzas empregadas no esfumado provêm de papéis deixados pelo pai, registros de atividades que Adalgisa herdou, queimou e conservou durante anos. No desenho, essas cinzas se transformam em matéria gráfica.
Podemos então voltar a Protágoras. Em Adalgisa, o corpo mede o mundo sem reivindicar ser sua medida. Mede a partir de onde está, do que alcança, dos espaços que percorreu e daqueles aos quais chega pelos vestígios deixados por outros. Nenhuma dessas medidas é definitiva. Entre a inscrição no mundo e a escala de um lencinho, Adalgisa continua, antes de tudo e por fim, desenhando.
Exposição Cosmografias e Lencinhos - Adalgisa Campos
Local: Lança Galeria
Endereço: Rua Major Sertório, 88/502 - Vila Buarque - São Paulo
Visitação: De 22 de agosto a 02 de outubro, de terça a sexta, das 14h às 19h30.

