Caminhos do Ferro: o que resta quando a matéria muda de lugar
Na série Caminhos do Ferro, Gregório Soares trabalha com placas de concreto e fragmentos metálicos incorporados à superfície. As peças são pequenas, medem 25 x 25 cm, mas carregam uma presença que não depende da escala. Há nelas uma relação direta com o peso dos materiais, com o tempo inscrito nas coisas e com aquilo que permanece depois que um objeto deixa de cumprir sua função original.
Caminhos do Ferro, 2023 I 25 x 25 cm I Objeto de concreto com objetos metálicos fundidos
O ferro aparece gasto, oxidado, às vezes partido ou incompleto. São pedaços que parecem ter pertencido a outros usos: estruturas, encaixes, ferramentas, restos de construção, elementos retirados de algum circuito cotidiano. Ao serem deslocados para o campo da obra, esses fragmentos deixam de ser apenas sobra. Passam a ser sinais.
O concreto, por sua vez, funciona como uma base de contenção. Ele recebe o metal sem apagá-lo. Não tenta organizar demais, nem transformar os fragmentos em imagem reconhecível. Há uma espécie de equilíbrio entre o que foi encontrado e o que foi decidido. Cada peça parece guardar uma pequena situação: uma linha, uma dobra, uma mancha, uma ferrugem, um vazio. Nada está ali para ilustrar algo. As formas existem como vestígios de matéria e de tempo.
Vistas separadamente, as obras têm uma força silenciosa. Vistas em conjunto, começam a construir uma espécie de vocabulário. Algumas lembram marcas, outras parecem pequenas engrenagens interrompidas, sinais de orientação, mapas mínimos ou letras de uma escrita que não se completa. Não se trata de decifrar cada imagem, mas de perceber como uma forma conduz à outra. O conjunto cria ritmo, pausa e repetição.
Há também uma relação importante com o desenho. Gregório não desenha com linha sobre papel. Aqui, o desenho surge da presença dos próprios materiais. Um fragmento de ferro pode funcionar como traço. Um furo pode abrir espaço como ponto. Uma haste inclinada pode criar direção. Uma peça enferrujada pode concentrar a atenção como uma mancha. O desenho acontece menos como gesto e mais como escolha, aproximação e posicionamento.
A série também se aproxima de uma experiência urbana. Concreto e ferro são materiais ligados à construção, à estrutura, ao chão das cidades. Mas, em Caminhos do Ferro, eles aparecem reduzidos a uma escala íntima. Aquilo que costuma pertencer ao campo da obra pesada, da engenharia ou do descarte passa a caber diante do olhar. O que era parte de um sistema maior se torna fragmento observável.
Essa mudança de escala altera a maneira como nos relacionamos com os materiais. O ferro enferrujado deixa de ser apenas sinal de desgaste. O concreto deixa de ser apenas superfície dura. Juntos, eles passam a sugerir memória e interrupção. São obras que se constroem a partir dos resíduos do mundo, da matéria que sobra, das marcas que resistem e continuam a falar.
Em Caminhos do Ferro, Gregório Soares se aproxima da vida anterior das coisas. A série observa materiais comuns em sua aspereza própria, preservando irregularidades, desgastes e vestígios de uso. Com isso, constrói uma leitura mais espessa da matéria, entendida como presença, memória e força ativa, capaz de deslocar o olhar e revelar aquilo que permanece no tempo.

